14 janeiro, 2008

Objeto da arte

Enojado de mim, fujo de casa para naufragar na noite. Sozinho: que posso fazer se as melhores idéias me vêm sem companhia?
Longe, esboço enredos para romances literários ou reais. Quando o dia vence, volto pra casa e consigo escrever só poucas frases – umas oito, no máximo, que guardo neste meu inconsciente coletivo.
Claramente, eu já fiz minha escolha entre a criação e a memória. Depois de feito, de que vale guardar algo que já foi um pedaço (só) meu?
Criar sem lembrar é ter para sempre um momento perdido. (Se gostaram, tomem nota dessa)

13 janeiro, 2008

Something

Ele cantava “Something” toda errada. “Something in the way she woos me” soava como “she uses me”. O último verso "I don't want to leave her now / You know I believe, and how" era "You know I don't even know how". O começo do refrão "You're asking me will my love grow / I don't know, I don't know" se transmutava em algo como "You're asking me if I’ll let go".
No quarto, comecei a procurar o encarte para mostrar a letra certa. Prudência e uma licença poética me fizeram desistir a tempo. Afinal, gostava mais da versão dele. Talvez os Beatles é que estivessem errados.

10 janeiro, 2008

Pesadelos

Adormeceu e sonhou que podia andar novamente, até voar, e que ele havia voltado, arrependido e apaixonado. Mas, no momento em que chegava ao altar, despertava em desespero e decepção.
Passou cada dia menos tempo acordada e mais viva em delírio, recusando-se a abandonar o castelo que erguia dos lençóis.
Os sonhos ficavam cada vez mais elaborados. Com o tempo, ela foi eleita presidente do mundo, chegou à lua, descobriu a cura da fome e escreveu um poema que trouxe a paz mundial.
E todas as noites ela flutuava por seu reino, maravilhada com o mundo que seus olhos cerrados iluminavam.
Só não é um mundo perfeito porque ela ainda tem um recorrente e horrível pesadelo em que está sozinha e não consegue se levantar da cama.
Às vezes esse pesadelo dura o dia inteiro.

07 janeiro, 2008

Ilhado

As ondas batiam fortes e mais rápidas que as suas braçadas de delírio. Aos poucos a fadiga, as câimbras, a dor no baço e o desespero começam a carregar o corpo de volta à praia.
A correnteza lhe dá tempo para retomar sua respiração.
Enquanto flutua no verde frio das águas, ele encara o céu, sem conseguir ver qualquer terra no horizonte além da sua ilha. Suas braçadas não são fortes o suficiente para lhe dar asas que o resgatem desse imã de lama e abandono.
Ainda assim ele tenta, todas as manhãs, fugir do cativeiro náufrago. Às tardes ele é arrastado de volta com a vã esperança de que o mar possa ter trazido também outra ilha – qualquer uma – no lugar daquela. Ou outro náufrago para dividir sua miséria.

06 janeiro, 2008

Procura-se: (de) novo eu

Método e dedicação de vestibulando/2000
Cintura e peso modelo 2001
Humor de 2002
Amigos de 2003
Paixão (a mesma) desde 2004
Jornalismo e viagens como em 2005
Nada de 2006
Cabelos de 1997

05 janeiro, 2008

Sincroni-cidade

Enquanto eu me ocupo escrevendo isso
Fernando abraça a cintura nua de Lídia
Estevão come um xis-bacon duplo e fritas com maionese
Paulo e Gabriela engravidam-se
Diego bebe água gelada depois de 6 km na esteira
Carla anfetamina na pista
Enquanto eu escrevo isso sozinho
Esse bando de desocupados me deixa até um pouco culpado.

04 janeiro, 2008

Melhor que amigo

Meu primeiro melhor amigo ficou com minha namorada.
Meu segundo melhor amigo namorou minha ex.
Meu terceiro melhor amigo tentou minha pretendente – não deu em nada, mas a gente não consegue mais se falar como antes.
Encontrei minha quarta melhor amiga na cama com o melhor amigo dela (pior que eu até simpatizava com o cara).
Minha quinta melhor amiga resolveu que nós devíamos ser só amigos, e virou minha ex-melhor amiga.
Enquanto levava meu sexto melhor amigo para passear e satisfazer suas necessidades no parque, ele acabou se enroscando na melhor amiga de uma futura amiga minha.
Essa minha amiga – a sétima melhor – disse sim.
Meu oitavo melhor amigo aceitou ser o padrinho, mas ficou com uns olhares esquisitos durante a cerimônia.

11 dezembro, 2007

Coração dividido pela Dutra

SP: 10.999.999 habitantes / RJ: 6.000.0001 habitantes
Ruas paulistanas vazias sem você.
Pôr do sol sobrecarregado no arpoador quando estou aí.
Não adianta você voltar pra cá.
Eu por aí me atraso.
Falta o Rio dentro de você em São Paulo.
Minha paulistanice sobra na praia.
Precisamos achar outra cidade no meio do caminho, uma cidade para chamar de nossa: talvez Jacareí, ou Paraty.