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05 julho, 2014

Saudade, longe do berço

“Longe do berço, a palavra saudade é mais forte”, diria um expatriado lusitano, ainda pouco acostumado a encarar o sol nascer no mesmo Atlântico que agora o separa de casa.

Na verdade, essas palavras nunca chegam aos lábios. E vem de um brasileiro, feliz por mais um entardecer português.

Também a nascente desse idioma que une as margens atlânticas não se encontra aqui: o Lácio italiano deu flor longe das suas raízes latinas, e criou um idioma que já nasceu deslocado e saudoso.

E talvez saudade seja uma palavra muito forte para quem já começa a ver o retorno chegar, mas ainda se sente em casa onde não pertence.

Mas a verdade não faria sentido.

Real, só a palavra que viaja e nos carrega em seus sentidos.

Todos os outros fingem.

01 dezembro, 2010

O canto da sereia e o náufrago

Pesquisa é um canto de sereia que seduz e isola. Somos envolvidos em seus encantos e mergulhamos cada vez mais fundo em um oceano de conceitos tão fascinantes como intraduzíveis.

Absorvidos, esquecemos os outros marujos que deixamos para trás – tampouco poderíamos explicar (sem mostrar) as cores do fundo do mar para os que ainda sob ele se abrigam. E, por ser uma senhora caprichosa, nos é vedado continuar a ouvir sua bela melodia no conforto do barco; a sonoridade verdadeiramente pura só pode ser vislumbrada no meio líquido, onde os gritos de apelo de nossos companheiros são sufocados.

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Um semestre não é o suficiente para construir laços de amizade com nossos alunos. Raramente vemos mais de uma vez os colegas cujas pesquisas nos influenciaram - ou que se baseiam em nossas ideias.

Pensava que tinha abandonado meus amigos quando abdiquei da prática profissional para seu ensino e pesquisa. Mas talvez o que foi deixado para trás foi (meu antigo) Eu, náufrago que se desviou da rota, encalhado em uma ilha deserta que tomei por amante.

13 março, 2010

Pandora, Borges e o bebê

Ela sai do laboratório, cansada depois de mais uma jornada frustrante entre milhares de frases esparsas, procurando a sentença que contenha toda a beleza do mundo: a chave que se encaixa na fechadura de toda a tristeza eterna, liberando a felicidade de sua humanidade limitada.
Há meses tenta achar a frase perfeita; ela deve ter se escondido entre tantos livros, formulários, receitas e bilhetes que ela categoriza, seleciona... e rapidamente descarta. Infelizmente, a cada centena de registros que sua equipe analisa diariamente, bilhões novos são publicados, conversados, impressos ou enviados eletronicamente – um palheiro que cresce constantemente, aumentando a chance de que uma agulha esteja lá dentro, mas dificultando sua localização precisa. A máscara que impede a contaminação pelos ácaros seculares dos pergaminhos mais antigos também oculta qualquer sorriso que possa contaminar seus lábios.

Em casa, seu marido deixou uma panela tampada com sopa de letrinhas antes de sair para o turno da madrugada no hospital. Enquanto a sopa esquenta, ela tenta digerir, fascinada, os sons murmurados pelo seu bebê que aprende a falar – teria sua melodia sentido excessivo, significados demais para serem contidos em poucas palavras?
A cada colherada, de aviãozinho, as letras da sopa formam a sequência exata da frase que ela tanto busca – mas não há necessidade de se preocupar com isso, agora. A risada dele (mais gostosa pelo alimento simbolicamente nutritivo) embala seus ouvidos de volta para um tempo além das palavras e dos significados, onde os sentidos ainda podem imperar soberanos.

06 outubro, 2009

Pena

Aquela fila interminável de escapamentos, e já estávamos sem paciência, dentro do carro que vencera centímetros nos últimos minutos. No alto da ladeira, uma caminhonete estava encalhada, quase náufraga – os pneus afundavam sob o peso de quilos de banana, tangerina, maçã e morangos.
“No meio da pista, que filhoda...” mas aí, no meio da ofensa, parei – como ele parara, no meio da subida incompleta.
Um bigode honesto, quase arrependido, saiu do carro – filho de uma, como a minha. Tentou subir as ladeiras do Morumbi com a caçamba cheia de frutas, mas os deuses não deixariam que ele galgasse esse Olimpo.
Só pensamos em descer do carro para ajudar a empurrar quando viramos a curva e vencemos o trânsito. Só pensamos.
Em minutos veio a chuva, molhou as frutas, levou embora a encomenda mas não lavou a pena.

08 setembro, 2009

O que fazer?

A aposentadoria veio com lágrimas (dos que ficam) e uma placa na parede (do que vai): o que vão fazer sem mim?
Contratam uma menina mais nova, que fez um curso com um nome cheio de estrangeirismos.
Executiva recém-contratada revoluciona contratos corporativos em fusão com chineses, eu li na gazeta do mês seguinte. Eu paro de assinar o diário, mas as notícias não param de chegar nem de acontecer.
Ela recebeu um convite da diretoria, ouvi. E está procurando um substituto. Cogito mandar meu currículo, mas ele precisa ser digitado, e minha máquina de datilografar está sem a letra J.
O que vou fazer comigo?

23 maio, 2009

Com razão

A faixa de pedestres fica a uma dezena de passos da porta de casa no sentido contrário, mas ele faz questão.
Nenhum carro enquanto ele espera o sinal. Começa a cruzar a rua sob o holofote ao lado da câmera da CET.

Os passos ecoam na noite até serem engolidos pelo motor que desce solitário a rua.

Ele percebe o farol que se aproxima, mas não reduz os passos, protegido pelo homem verde luminoso, a poucos metros, na outra calçada. Ele está seguro de que não deve ceder à imprudência alheia.
Ela não desacelera, não vê farol nem homem verde ou de preto, nem a ironia de tudo isso.

Ele morre, com razão.

16 maio, 2009

Da corda do relógio para a forca

Em épocas mais ingênuas, achava que só era possível perder as apostas feitas. Fora do jogo, fora de risco.
Esses tempos se foram. Nesses dias não há lugar para salvadores e santos.
Estou cansado de dar corda no relógio para ver a hora da execução chegar com precisão. Na outra ponta da corda do relógio a forca sorri com a boca aberta e me engole cheia de promessas e um único capricho.
Não vou voltar a largar a direção – só decidi dirigir de olhos vendados, com o fígado como único anjo da guarda. Hora de assumir o controle, mesmo que seja para decidir conscientemente perdê-lo.


The Cardigan’s – My favourite game

14 maio, 2009

Por que você mataria?

No Pará, alguém lhe passa uma foto e uma nota de cinqüenta.
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Precisava chegar na hora da reunião e acabou separando o casal de ciclistas.
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Apertou um botão para ativar a cadeira elétrica, anotou o horário e foi tomar café.
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Agora que ela descobriu tudo, não faz mais sentido continuar com essa farsa.
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A noite mal dormida impediu a firmeza da mão, necessária durante a cirurgia.
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Esse cara deve ter os cinco reais que faltam.
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Ainda tinha sobrado uma bala no revólver, quando alguém abriu a porta devagar.
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Desligou o telefone sem saber que esse era o último grito de socorro.

08 maio, 2009

Escolhas erradas

Antes de deixar a cama, ele percebeu que foram as escolhas erradas.
Foram as escolhas erradas que o faziam encarar o teto cada vez mais claro, já tocado pelos primeiros raios da manhã depois de mais uma madrugada perdida.
Não precisava chegar cedo ao teatro – ela nem queria ver a peça. O final da tragédia (que ele não viu) não faria sentido para nenhum dos dois.
Definitivamente devia ter usado cinto, e não devia ter deixado ela tirar o dela, para fazer aquilo que ele tanto queria. Não devia ter ultrapassado os 120 por hora. A quinta latinha tinha sido tão errada quanto a primeira.
Ele foi etiquetado e trocou a cama ainda quente e vermelha por uma chapa de metal alguns andares abaixo.

02 maio, 2009

Tom's Dinner

And I look
The other way
As they are kissing
Their hellos

And I'm pretending
Not to see them
And instead
I pour the milk

(Suzanne Vega - "Tom's Dinner" - Solitude Standing [1987] - a versão original a capella não é frustrantemente mais adequada para enfrentar essea dias solitários e distantes?)


13 abril, 2009

Elenco

Um professor, um cientista, um jornalista, um trovador e um ser humano entram num bar.
Quando eles vão pedir suas bebidas, o barman começa a tossir e a ficar roxo. O cientista percebe que ele está engasgando e começa a rascunhar algumas propostas (como o aprimoramento da manobra de Heimlich) a serem publicados num periódico no próximo semestre. O professor explica ao homem que ele está sufocando e vai morrer se não prestar atenção nas suas recomendações.
O barman morre, evitando assim responder às incisivas questões do jornalista sobre seus objetivos reais com aquela simulação que pretenderia deslocar as atenções sobre o escândalo do financiamento da campanha do prefeito – no dia seguinte, o sobrenome do barman sai errado no obituário.
Só então o ser humano horroriza-se com o ocorrido – ele tinha saído, momentos antes do desastre, para ajudar uma velhinha a atravessar a rua.
O dono do bar contrata outro barman; a velhinha vota de novo no prefeito, que se reelege.
Anos mais tarde, o trovador publica este texto num blog.

24 fevereiro, 2009

Um dia como hoje

Há algo de preocupante em precisar recorrer a um calendário, ao relógio ou ao colega ao lado para descobrir que dia é hoje. Não conseguimos reconhecê-lo?
Seu colega ao lado, que sabe que dia é (mas não qual será o seu dia), não pode te explicar por que você não sabe – ignorância não se explica, tampouco nos alivia.
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É triste ter que enumerar para individualizar os dias, eles acabam somente enfileirando-se ao infinito, do um ao trinta, ou trinta e um, ou menos; e voltando ao um, acrescentando mais um mês, um ano – uma engrenagem menor que move outra maior, mais um grão de areia na parte de baixo da ampulheta, igual a todos os outros que ainda restam em cima.
Se os dias não fossem tão confusos e iguais (como nós), saberíamos quem são (e quando seria o nosso dia), ou eles continuariam a dissolver-se em multidões não mais padronizáveis, mas caóticas? Reconheceríamos, ciclopicamente, ao menos o último, antes que tivesse passado e levado tudo?
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Dizer que hoje é terça não é uma resposta – o que é uma terça, afinal?
É só uma etiqueta: assim como um crachá oculta o psicopata atrás do terno e gravata da normalidade, não conseguimos prever, de longe, quais são as verdadeiras intenções por trás desse nascer do sol dissimulado ou dessa garoa que impede a alvorada de respirar.

19 fevereiro, 2009

Lista em xeque

Primeiro você anota o que precisa fazer num pedaço de papel. Num caderno pautado, lista as ferramentas e materiais, agenda consultorias com amigos e soma os custos numa planilha. Os post-its começam a crescer como bolor ao redor dos móveis e na geladeira com alterações de última hora. Depois de traçar algumas rotas logísticas pelo mapa, programa o despertar para bem cedo, para tentar concluir tudo até o fim do dia.
Depois de anos de procrastinação, meses de necessidade, semanas de ansiedade e dias de preparação, em poucas horas está pronto.
Só então percebe o erro de principiante. Um vício que contaminou o projeto desde o início. Devia ter anotado em algum lugar por que precisava de tudo isso.

09 fevereiro, 2009

Piloto passageiro

Os olhos arenosos mesclam a estrada, o horizonte e o começo do sonho num piscar sem retorno à lucidez. Relaxadas, as mãos escorregam pelo volante, saindo da posição 10:10 e voltando o tempo para 9:15, 8:20 – às 7:25, esbarram na perna que começa a pesar no acelerador. O som da chuva começa a se distanciar, assim como o rádio; só resta o hipnótico mantra pendular do limpador de pára-brisa.
Sonha que voa acima das nuvens que ainda chovem; a leve turbulência seria um sinal de que as rodas engasgam nos olhos de gato ao cruzar as faixas. O resto da sua consciência racionaliza que, se o carro pender à direita, restaria ainda duas faixas; se for para a esquerda, a perna sobre o acelerador deve garantir velocidade suficiente para uma capotagem no canteiro central.
Do seu sonho, olhando para baixo, pode ver um carro que se aproxima pela faixa do meio e deve, a qualquer momento, buzinar para despertá-lo e ancorá-lo de novo ao solo e a pista – até torce por uma colisão menor com esse carro, um pára-choque amassado em troca da garantia de um despertar.
A curva insinuava-se na neblina quando uma grande nuvem cinza cobriu os carros e engoliu todo o mundo do sonhador, que voa cada vez mais para o alto e não vê mais nada.
Esse descontrole desesperador e silencioso é o que eu (e talvez você também, há ainda mais tempo) tenho vivido nos últimos três anos da minha vida.

07 fevereiro, 2009

Perdas e perdões

“Não se preocupe, é uma virose que está rodando com o inverno”, disse o doutor enquanto recomendava repouso e o colocava sob observação.
A infecção generalizada, no segundo dia, parecia uma garantia de bastante repouso em poucas horas. Sob os olhares úmidos dos filhos, e protestos da equipe da UTI, removeram por poucos minutos o tubo que garantia a respiração.
As palavras foram poucas, mas o também rarefeito ar a cada tosse alongou a confissão: aquilo tinha acontecido há muito tempo, mas não há tempo suficiente para esquecer-se. Sob suplícios moribundos, só os lábios da esposa cederam o perdão, enquanto os filhos calavam, decepcionados pelo fim não ter chegado a tempo de poupar a desgastante revelação.
No terceiro dia veio a alta do hospital, acompanhado das congratulações e da surpresa da equipe que cuidou do caso. Mas os médicos só estavam felizes pela recuperação do paciente porque não ouviram sua história – ou talvez só estivessem aliviados por não ter que enfrentar mais um processo duplo por erro de diagnóstico.
Ninguém apareceu para buscá-lo na porta do hospital – nem esposa, nem filhos, nem perdão – só o taxista, que agradeceu a gorjeta depois de deixá-lo no meio da ponte entre a zona sul e o fim.

05 fevereiro, 2009

As madrugadas são para os fortes

Algumas pessoas são maiores do que suas camas e recusam-se a algemar-se entre lençóis, oferecendo o pescoço à guilhotina do travesseiro.
Para essas pessoas, as madrugadas são o Velho Oeste selvagem e cheio de oportunidades, o Atlântico com as promessas do Novo Mundo. Aos que ousam cruzá-las, há a promessa esperançosa da terra-a-vista, vislumbrada, num novo horizonte, pelo nascer do sol.
Madrugadas são o campo de batalha contra o inimigo interno e invencível do sono, ceifador que, como a morte, tenta os justos com paraísos oníricos e ameaça a todos com pesadelos dantescos. “Um dia você vai morrer, e será assim” – sussurra o desenlace inconsciente ao que sucumbe e adormece.
São o teste para os que não tem obrigação de acordar cedo e o desespero para os que, na verdade, não tem motivos para levantar-se em qualquer horário porque, afinal, nunca realmente despertaram.
É o único lugar em que se pode escrever em paz, longe da visão incandescente do mundo. São um convite em branco para os que se recusam a esperar o próximo ataque de diarréia cotidiana de olhos fechados.

03 fevereiro, 2009

Ligações

Alô?
E aí, cara, como é que vocês andam?
...
Pro México?
Mas você ligou pra ela?
Mas ela não pode ler e-mail no México?
...
Como assim, quanto tempo?
...
Que ex-namorado?
.
Tá, a gente se fala outro dia.

02 fevereiro, 2009

Enjoy your cup of depression

O problema não se resolve com uma bolsa nova. Ou com um telefonema. Nem com um corte de cabelo diferente. Muito menos com giletes. Um pedaço de bolo só pioraria as coisas.
Podia tentar um pouco de sexo, mas daria muito trabalho. E seria tão útil quanto os 10 minutos a mais de soneca.
Sei que o médico não aprovaria, mas a única coisa que parece funcionar é continuar coçando a casquinha da ferida.

01 fevereiro, 2009

Alheio

Cada página lida é uma frase não escrita.
Cada mapa estudado, um passo não dado.
Cada filme na platéia, uma cena não ensaiada.
Todo diálogo é um beijo sem toque.
Cuidado com as vidas alheias. Evite a tentação de que elas ocupem e previnam todo o seu viver.
Limite sua curiosidade, seu interesse e sua dedicação aos gestos que não são seus. Ou, nos seus últimos dias, só terá histórias alheias para contar.

08 fevereiro, 2008

Writers’ block

O mundo pode ser um palco – mas, para os roteiristas, ele é bidimensional, branco, tamanho A4.
Foi um ataque fulminante de writers’ block, bloqueio dos escritores, justo quando esboçava a peça da sua vida.
A peça não era somente aquela que o revelaria, a que o tornaria quem ele sempre deveria ser. Era também a história da sua própria vida, e chegara naquele culminante momento no mesmo instante em que as palavras resolveram lhe abandonar.
Passou os próximos dias sem conseguir se mover, os dedos tensos como garras de um falcão a espreitar suas vítimas, mas mantendo a distância prudente entre a tecla que desencadearia todas as outras. Inutilmente tentava narrar o ato de escrever a frase da guinada, mas não conseguia ler (como ator da peça de sua vida) a palavra que deveria datilografar – era uma armadilha paradoxal, mas sem escape.
Dois anos depois que o encontraram morto aos pés da máquina de escrever estéril, estreou a peça baseada no seu drama. E a verdadeira tragédia, notem, é que ele não pode escrever o próprio ato final, justamente aquele que antecedeu os aplausos.