17 janeiro, 2008

Receitas para dor alheia

Acordei com uma dor no braço diferente da costumeira.
Meu médico recomendou uma dieta rica em cálcio.
No shopping, um colchão novo prometeu serenidade em oito vezes sem juros.
Meu psicanalista me perguntou se minha mãe condenava o onanismo.
Ela diz que eu devia parar de escrever tanto até tarde.
O mecânico acha que o câmbio está custando para engrenar da primeira para a segunda e precisa de um novo alinhamento.
Meu chefe me deu o resto do dia de folga e disse pra encomendar um teclado ergonômico.
Minha avó me benzeu, puxou três rezas segurando uma colher de água e me deu pra beber instantes antes de, coincidentemente, parar a dor.

16 janeiro, 2008

Sorvendo areia

Meu camelo morreu no 44º dia em que atravessava o deserto.
As tempestades de areia moviam a paisagem a cada noite, então eu não sabia se estava perto de escapar daquele inferno árido ou se ainda estava a poucos quilômetros de onde começara minha peregrinação. Depois de oscilar o primeiro mês em círculos, percebi que havia afundado ainda mais nas entranhas secas do deserto, fugindo do meu ponto de saída e me distanciando, sem saber, da salvação.
Nenhuma miragem me distraiu para que eu pudesse me ausentar da áspera realidade. Uma miragem teria ao menos me salvado da lucidez clara e brilhante em que me afogava.
Depois que meu camelo morreu, no 44º dia, passei a arrastar sua carcaça nas costas. Ainda que me atrasasse, sentia que poderia me alimentar de sua carne – se ela ainda não tivesse apodrecido sob o sol. Ao menos ele me fazia companhia e me impedia de ter qualquer esperança de chegar a algum lugar.

15 janeiro, 2008

Alívio

Ela voltou e ele aceitou todas as desculpas. Até mesmo as que ela não deu: depois, na memória fantasiada do reencontro, ele inventou justificativas complementares irrecusáveis.
Mas a verdadeira desculpa era dele.
Mais do que casado, estava agora aliviado por não ser mais solteiro. Aliviado por não ter mais que procurar outra. Aliviado por não sofrer mais, tentado a encontrar os olhos dela nos outros rostos. Aliviado por não ter mais que falhar em simplesmente tentar. Aliviado por não ser mais errante.

14 janeiro, 2008

Objeto da arte

Enojado de mim, fujo de casa para naufragar na noite. Sozinho: que posso fazer se as melhores idéias me vêm sem companhia?
Longe, esboço enredos para romances literários ou reais. Quando o dia vence, volto pra casa e consigo escrever só poucas frases – umas oito, no máximo, que guardo neste meu inconsciente coletivo.
Claramente, eu já fiz minha escolha entre a criação e a memória. Depois de feito, de que vale guardar algo que já foi um pedaço (só) meu?
Criar sem lembrar é ter para sempre um momento perdido. (Se gostaram, tomem nota dessa)

13 janeiro, 2008

Something

Ele cantava “Something” toda errada. “Something in the way she woos me” soava como “she uses me”. O último verso "I don't want to leave her now / You know I believe, and how" era "You know I don't even know how". O começo do refrão "You're asking me will my love grow / I don't know, I don't know" se transmutava em algo como "You're asking me if I’ll let go".
No quarto, comecei a procurar o encarte para mostrar a letra certa. Prudência e uma licença poética me fizeram desistir a tempo. Afinal, gostava mais da versão dele. Talvez os Beatles é que estivessem errados.

10 janeiro, 2008

Pesadelos

Adormeceu e sonhou que podia andar novamente, até voar, e que ele havia voltado, arrependido e apaixonado. Mas, no momento em que chegava ao altar, despertava em desespero e decepção.
Passou cada dia menos tempo acordada e mais viva em delírio, recusando-se a abandonar o castelo que erguia dos lençóis.
Os sonhos ficavam cada vez mais elaborados. Com o tempo, ela foi eleita presidente do mundo, chegou à lua, descobriu a cura da fome e escreveu um poema que trouxe a paz mundial.
E todas as noites ela flutuava por seu reino, maravilhada com o mundo que seus olhos cerrados iluminavam.
Só não é um mundo perfeito porque ela ainda tem um recorrente e horrível pesadelo em que está sozinha e não consegue se levantar da cama.
Às vezes esse pesadelo dura o dia inteiro.

07 janeiro, 2008

Ilhado

As ondas batiam fortes e mais rápidas que as suas braçadas de delírio. Aos poucos a fadiga, as câimbras, a dor no baço e o desespero começam a carregar o corpo de volta à praia.
A correnteza lhe dá tempo para retomar sua respiração.
Enquanto flutua no verde frio das águas, ele encara o céu, sem conseguir ver qualquer terra no horizonte além da sua ilha. Suas braçadas não são fortes o suficiente para lhe dar asas que o resgatem desse imã de lama e abandono.
Ainda assim ele tenta, todas as manhãs, fugir do cativeiro náufrago. Às tardes ele é arrastado de volta com a vã esperança de que o mar possa ter trazido também outra ilha – qualquer uma – no lugar daquela. Ou outro náufrago para dividir sua miséria.

06 janeiro, 2008

Procura-se: (de) novo eu

Método e dedicação de vestibulando/2000
Cintura e peso modelo 2001
Humor de 2002
Amigos de 2003
Paixão (a mesma) desde 2004
Jornalismo e viagens como em 2005
Nada de 2006
Cabelos de 1997