07 fevereiro, 2008

Amputação

Escondendo o olhar de embaraço na sua prancheta, o médico alertou que a necrose tinha atingido até o fêmur e só restava agora a amputação para tentar salvar os tecidos que ainda não tinham sido comprometidos.
Olhei para a perna e, maior do que o horror da separação, uma dúvida inocente me atingiu: que lado da perna seria salvo? O médico não soube responder se salvaria o lado que incluía aquele pé (que parecia solitário e imóvel, mas ainda saudável) ou o resto, o outro pé, a outra perna intocada, o quadril e tudo mais ao norte, de onde falo.
Talvez o pé mereça mais ser salvo do que eu: ele nunca fez mal a ninguém, nunca escreveu essas bobagens, nunca não disse o que queria. Tropeçava, às vezes, mas podia estar somente tentando me impedir, e talvez alegasse autodefesa.
Imaginei um outro eu, regenerado, nascendo a partir da faixa negra, com uma outra coxa, como uma ampulheta, levando a outra bacia, outro tronco e outra cabeça. E esse outro eu bebe aos poucos da areia que corre desse lado para o outro com o tempo. Ele é imperfeito (no lugar da perna, há uma necrose, ligada a esse eu que se extingue), imóvel, indiferente, impassível, mas não inadequado, como todo o resto.

05 fevereiro, 2008

Criação

A partir de uma só seção do tronco sólido, dividi-la em quatro faixas finas e firmes, uma base redonda, mais oito filetes curtos e um grosso e longo para o suporte das costas.
Ainda com o dedo mordido pelo martelo e as costas latejantes pela incômoda posição da serra, o conforto de descansar as pernas num banco seu – não só porque você o possui, ou porque está reservado para seu assento, mas porque você o fez, você o criou a partir de uma só seção de tronco sólido e o transformou em repouso.
Você poderia lixá-lo, cobrir com uma camada da tinta que sobrou do telhado, mas aí seria outro banco, menos rústico, menos seu.
Enquanto você está trabalhando, durante o dia, os netos se apóiam nele para roubar biscoitos. O cão dorme encostado nas suas pernas enquanto você viaja para a cidade.
Muito depois de você ter ido, ainda haverá quem possa ocupar o seu lugar. Mesmo quando todos os que já ouviram suas histórias se forem, qualquer pessoa ainda poderá descansar na sua sólida criação.
E assim será até que o fogo o consuma e apague.

26 janeiro, 2008

Todas as noites

Todas as noites, era a mesma pergunta enquanto você dormia no meu ombro.
O que teria acontecido se eu não tivesse te dado aquele beijo, naquela noite?
Eu teria conhecido a Itália?
Teria lido Cortázar?
Já teria ouvido falar em Herman Düne, Rachael Yamagata?
O sabor do tango, a doçura das jabuticabas no pé?
Agora não preciso mais imaginar, todas as noites eu sinto a resposta.
Acontece todas as noites.

21 janeiro, 2008

nananana

O ápice chega aos três minutos e oito segundos, depois que Paul grita
Naaa na na nananaaaa nananaaaa
Hey Jude
São os simples prazeres
A língua dela desce e sobe a cada nananana, colada no lábio inferior
Envolve um picolé invisível
Quase consigo sentir
Colado no lábio inferior

20 janeiro, 2008

Ócio

Talvez eu devesse voltar a fazer alguma coisa com os meus dias além de aguardar o anoitecer intercalando refeições.
Antigamente, eu tinha um emprego, completava o orçamento com trabalhos extras, filmava, corria, nadava, estudava de noite e escrevia. Acho que em algum ponto eu tirei férias, ou me demiti, não sei ao certo... talvez houvesse uma garota, também.
Só sei que uma grande parte do propósito dos meus dias se dissolveu em expectativas.
No princípio, troquei minha cama por areia movediça, num deserto em que os sonhos me tentavam e decepcionavam, como oásis. O tempo foi passando, e os passatempos expandiram-se até não sobrar um só instante livre que pudesse dedicar a alguma atividade produtiva. Fui absorvido por livros que não eram os que eu estava escrevendo, filmes que não havia dirigido, estudos que não havia publicado, problemas que não eram os meus.
Histórias alheias acabaram ocupando o tempo ocioso que eu passei a chamar de vida.

Dois mil e oito e vinte dias

Escrevo dez páginas ao dia.
Se tivesse começado a escrever um livro no dia primeiro, já teria duzentas e teria escrito um livro.
Em uma hora de corrida moderada, completo oito quilômetros (mais que isso o joelho e o pulmão não agüentam na atual forma física cilíndrica).
Em vinte dias, já teria emagrecido quatro quilos, talvez cinco, e não teria mais um terceiro dígito na balança.
Leio vinte páginas por hora.
Com cinco horas de leitura diárias, teria lido 2.000 páginas e não teria mais uma estante ocupada com livros virgens.
De carro, são cinco horas até o Rio.
Poderia ter visitado ela 48 vezes – imaginando que tudo o que conseguiria dizer levaria somente poucos minutos.

19 janeiro, 2008

Mudo

Falei sobre silêncio e solidão ontem e, no café, quatro surdos-mudos conversavam alegremente enquanto eu lia sozinho. Só se ouvia o virar das páginas e o sorver café.
Talvez, se eu fosse totalmente surdo-mudo (e não só parcialmente, como já o sou), a complicação de tudo o mais que é corriqueiro e simples tornasse mais fáceis algumas coisas impossíveis.
Eu teria um grupo, por exemplo, e meus amigos sempre teriam que sair juntos – talvez alguma delas até aceitasse compartilhar meu silêncio e quisesse dividir essas noites que tenho livres. Ao menos minha auto-piedade teria justificativas mais plausíveis: eu teria um rótulo, uma justificativa, uma explicação, uma expiação, um alvo para minha revolta. As pessoas iam olhar para mim e entender, “coitado, é desse jeito porque não consegue falar com ninguém” – e ninguém ia ousar exigir que eu mudasse.
E o silêncio, agora insuportável, seria aceitável ante a total falta de alternativa.
Mas cada lento compasso do relógio em silêncio continua a gritar todas as notas que estão lhe faltando.

18 janeiro, 2008

Silêncio sozinho covarde

Uma mulher entra na lanchonete e percebe o único homem, sozinho numa mesa com quatro lugares, próximo ao balcão.
Ela pode sentar-se na frente dele, e ele poderia se tornar o homem da sua vida. Há também o assento oblíquo, nem diretamente ao lado nem à frente, mas próximo suficiente para dizer “Oi, sou a Cláudia, trabalho na loja da esquina... você gosta de cinema?” ou fazer uma piada sobre como o lugar estava cheio, “Ainda bem que fiz reservas com antecedência...”. Ou numa das mesas vizinhas, poderia só elogiar a gravata dele, um tom profundo e calmo como o céu no início de uma noite refrescante de verão, e ver pra onde iriam as coisas a partir daí.
Mas não. Ela senta-se em outra mesa, próxima a uma pilastra, e mastiga sua solidão vagarosamente. É uma distância segura para impedir qualquer risco de contato, mas ainda é próximo o suficiente para permitir olhares fugazes enquanto ela imagina se ele saberia beijar seus lábios inferiores como o ator da novela, se sua voz seria grave e reconfortante como a de seu avô, ou se ele seria um bom pai para seus filhos.
Na saída, pensa em perguntar se ele tem um isqueiro, mas percebe a placa com o círculo riscado, cortando o cigarro ao meio, e sai da lanchonete silenciosa e covarde.