28 abril, 2009

O toque da Peste com odor floral e tripla ação bactericida – Ivan 8,6

O abuso da feijoada, após sete refeições consecutivas, atrai a atenção da segunda cavaleira do apocalipse. Peste surge depois das 11 da manhã e justifica seu atraso pela febre do filho e a greve dos perueiros. Eu sorrio com pesar (sempre tenho dificuldade com essa mistura facial de aquiescência e ternura) enquanto sobreolho uma reportagem sobre os protestos em oposição ao fim da Humanidade.
Sem perder tempo, a demoníaca encarnação de tumores viscerais varre meus domínios e liga o aspirador enquanto tento, sem sucesso, assistir à reprise de House. A empregada rapidamente despeja suas toxinas e cobre os assoalhos da casa com vermes, fungos, bactérias e Ajax Flores Campestres.
Sinto-me intoxicado e sufocado pela presença de outra pessoa com quem preciso dividir o resto da Humanidade e lavar a louça. Minha esperança é o refúgio no único local onde nem mesmo baratas poderiam sobreviver ou fazer faxina. Faço meu abrigo instável no território clandestino, no cemitério radioativo, na terra-de-ninguém do Quarto do Meu Irmão, onde nenhuma mulher, luz do sol ou produto de limpeza jamais ousou ir – e lá eu espero pelos novos sinais da perdição entre garrafas de Pepsi Twist light e pacotes semi-vazios de bolacha.

27 abril, 2009

O abraço azedo da Fome Delivery – Ivan 8,5

Com o soar dos sete despertadores do juízo final, abro o sétimo e último pote de feijoada congelada da minha vó. Horas depois, recebo a visita do primeiro cavaleiro do apocalipse. Fome surge na entrada de serviços, precedida pelas trombetas do interfone.
O cavalheiro retira seu elmo com viseira espelhada e se apresenta como Deividnelson. Sua mensagem para o mundo é igualmente confusa: ele clama que a pizza foi 20 reais, mais gorjeta.
Reclamo o esquecimento do guaraná família, o que traz dolorosas lembranças dos que se foram para um lugar mais próximo do nível do mar. Passo a noite em claro intrigado pela simbologia: esta pizza tinha oito pedaços – OITO!
Não pode ser coincidência; deve ser um novo sinal, que preservo intocado na geladeira.

26 abril, 2009

O Eremita recebe a visita da voz divina – Ivan 8,4

A morte de meu travesseiro poderia ter me abalado em dias anteriores, mas agora me sinto apaixonado pela minha vida revigorada. I’m fulfilled by the emptiness of all those long gone.
E a esperança é a última a perceber que todo mundo já foi pra casa faz tempo e que só sobrou a conta para pagar. Recebo um e-mail de outra sobrevivente igual a mim, que vive num pequeno povoado isolado, uns 450 kms daqui para o leste. A mensagem é curta, mas de uma beleza rústica: “seu blog, como a vida, é uma merda.” As palavras me aquecem e reafirmam meu novo propósito para esses dias que ainda me restam. Vou espalhar os dez mandamentos em post-its que me foram revelados por um anjo stripper de biquíni.
À noite, a aparição ruiva retorna só de botas e batom, e pede para eu arrumar o quarto de hóspedes porque os Quatro Cavaleiros do Apocalipse estão chegando - logo agora que eu estava começando a me divertir.

20 abril, 2009

Os novos dez mandamentos em post-its – Ivan 8,3

1. Não age somente em prol de bem maior ou como se teus atos fossem regra universal, mas também fazê-o como cavaleiro medieval, gentleman britânico ou como o Superman ou outro personagem de HQs – e de preferência da forma que te traga mais dor, mágoa, rancor ou nobreza.
2. Não mentirás, nem sonegarás, nem trairás, nem matarás, nem prejudicarás ninguém (nem se ele merecer), muito menos divertir-te-ás.
3. Ama, acima de todas as coisas, a mim, seus pais, seus irmãos, seus semelhantes, seu país, sua empresa, seu time, a natureza, o desenvolvimento sustentável, você e todas as coisas, nessa ordem.
4. Não perderás nem ignorarás suas tarefas anotadas em post-its, ou serás condenado à danação e ao esquecimento das senhas do net-banking.
5. Ria sempre do seu próximo como ele riria de ti mesmo.
6. Guarda os domingos para depois.
7. Para cancelamento da fatura, verificação do saldo, desespero ou crise com namorado, tecle 8, ou aguarde para falar com um dos nossos operadores.
8, 9 e 10: Em caso de dúvidas, desliga e liga de novo.

19 abril, 2009

O sacrifício do travesseiro mártir – Ivan 8,2

Meu travesseiro morreu na madrugada de ontem. Acordei de manhã do seu lado na cama e o chamei para o café, mas ele não se mexeu. Quando tentei fazer uma massagem para animá-lo, percebi que ele estava frio, imóvel. Em desespero, tentei chamar uma ambulância, mas as linhas estavam desconectadas desde que a humanidade acabou e desceu a serra para aproveitar o feriado no litoral.
Tentei reanimá-lo seguindo as instruções sobre ressurreição cardio-pulmonar que encontrei numa caixa de sucrilhos, mas toda vez que assoprava sua boca acabava coberto de inertes penas de ganso.
Conforme os desejos expressos em seu testamento, o enterro celeste seguiu o ritual budistas de dissecação. Poucos urubus comparecem para refestelar-se nas plumas que voavam, com o vento, para um lugar melhor, flutuando sobre a pista local da marginal Pinheiros, sentido Interlagos.
Nessa noite, enquanto adormeço no sofá reclinável da sala, um anjo ruivo surge num biquíni e me entrega os novos dez mandamentos em post-its.

18 abril, 2009

A Humanidade termina e desce a serra no feriado – Ivan 8,1

Na sexta-feira, a Humanidade acabou e desceu a serra para aproveitar o feriado no litoral.
Eu fiquei para trás, sozinho.
Minha missão é audaciosa: gravar a final do paulistão para meu irmão, pagar a conta do gás que vence na segunda e registrar os últimos suspiros de uma sociedade vazia de significado.
Esse é o diário de um sobrevivente, um evangelho repetitivo e desagradável.
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As cinco profetas e ex-namoradas já haviam alertado sobre os sinais, como a vitória do Obama, o aquecimento global e o fim dos episódios inéditos de House. Mas todos os outros ignoraram os sinais, e eu continuei postergando o retorno ao cardiologista. Quando senti o braço esquerdo começar a formigar, já era tarde demais: os ingressos para o Radiohead sempre esgotam depois que o cara que furou a fila compra o dele.
Seis horas de Guitar Hero depois, eu não tinha mais forças para terminar de digitar minha qualificação para o mestrado nem para qualquer outra auto-indulgência mais manual.

13 abril, 2009

Elenco

Um professor, um cientista, um jornalista, um trovador e um ser humano entram num bar.
Quando eles vão pedir suas bebidas, o barman começa a tossir e a ficar roxo. O cientista percebe que ele está engasgando e começa a rascunhar algumas propostas (como o aprimoramento da manobra de Heimlich) a serem publicados num periódico no próximo semestre. O professor explica ao homem que ele está sufocando e vai morrer se não prestar atenção nas suas recomendações.
O barman morre, evitando assim responder às incisivas questões do jornalista sobre seus objetivos reais com aquela simulação que pretenderia deslocar as atenções sobre o escândalo do financiamento da campanha do prefeito – no dia seguinte, o sobrenome do barman sai errado no obituário.
Só então o ser humano horroriza-se com o ocorrido – ele tinha saído, momentos antes do desastre, para ajudar uma velhinha a atravessar a rua.
O dono do bar contrata outro barman; a velhinha vota de novo no prefeito, que se reelege.
Anos mais tarde, o trovador publica este texto num blog.

14 março, 2009

Alunos 1 X 0 “Professor”

- ... então, os mísseis lançados contra o sul de Israel levaram a uma retaliação: o bombardeio e a ocupação da Faixa de Gaza entre o final do ano passado e o começo desse ano. Alguém tem mais alguma dúvida sobre os conflitos, ou sobre as diferenças de objetivos do Hamas, Fatah, Kadima e Likud?
- Professor, você não vai mais escrever na Super?
- Eu precisei parar um pouco, para poder continuar com minhas aulas aqui e na outra unidade, além do mestrado na USP e a edição de uma revista acadêmica sobre comunicação – só consigo fazer quatro coisas de cada vez [piada mal-sucedida]!
- E por que você largou o seu único trabalho legal?
- ...
Essa atravessou a couraça do personagem/professor e desarmou minhas defesas.
O aluno não ter percebido o quanto isso soou ofensivo não foi o pior – o grave foi eu não ter uma resposta nem nunca ter pensado nisso antes, dessa forma.

Pelo menos outra aluna elogiou minha camisa nova.