19 janeiro, 2007

Atlas

1. Eu abri os olhos sem acreditar no gigantesco monte de terra e rochas que aquele homem sustentava sozinho.
2. Tampouco ele pode acreditar em mim, pois, ao me ver, pareceu surpreso o bastante para quase perder o equilíbrio e derrubar aquela montanha invertida que escorava, pelo cume, com as costas.
3. Percebi que se tratava de Atlas, o herói grego condenado a sustentar o mundo por toda a eternidade.
4. Ele sussurrou algo quando tentei me afastar por puro medo instintivo – que só pude compreender quando me aproximei um pouco.
5. “Por favor, tenha piedade, me ajude”, balbuciou, a saliva da fala se misturando no suor que banhava sua pele.
6. Quis correr, nesse exato instante, com medo de ele suplicar que eu dividisse o seu fardo titânico – mas também temia que ele, furioso com minha fuga, derrubasse um pedaço do mundo (a Irlanda, talvez) na minha cabeça.
7. Paralisado, ouvi o gigante gemer um desejo tão antigo quanto o tempo:
8. “A perna esquerda... nnng... estou com uma coceira na coxa que... por favor!”

17 janeiro, 2007

Sem medo nem chances

1. Numa noite de manhã, o terror invade meu silêncio.
2. Minha imaginação viciada, numa bad trip de falsas esperanças, encara sucrilhos açucarados em doses cancerígenas – e o colesterol? a obesidade, com seus ataques cardíacos espreitando a cada esquina, a cada escada? e o aquecimento global?
3. Tudo choca meus olhos como maligno – os duendes com sorrisos diabólicos saem de seu pântano, no final do arco-íris, e vem cortar minha garganta de manhã com a colher de plástico para ficarem com o brinde da caixa de cereais.
4. Coisas terríveis, verdadeiros horrores; encaro o teto escuro.
5. Insetos voam e infestam minha insônia – Chagas? malária? leishmaniose? ebola?
6. Para tentar pegar no sono, conto as balas perdidas que poderiam chegar à minha cama depois de estilhaçar a janela que dá para a paisagem favelada.
7. E todo esse terror, todo esse medo... é como voltar para casa, confortavelmente paralisado.
8. Em calma, sem nenhum ruído, um pesadelo me embala e acolhe.

16 janeiro, 2007

Em paz

1. As ruas se encontram nesses pontos em que te procuro.
2. Não sobrou nenhuma esquina nessa cidade que eu não tenha visitado.
3. Sempre achei que estava perto quando vasculhava os negócios particulares das mulheres públicas do centro.
4. Mas não – elas eram outras.
5. O único lugar que me resta procurar... teria você coragem de ter se escondido dentro de mim?
6. Encaro o túnel frio e negro que me engole com um tiro.
7. No teto, na parede, no sofá e no tapete, meus pedaços riem do meu desespero.
8. Retalhado, eu formo um quebra-cabeça do seu retrato.