21 janeiro, 2008

nananana

O ápice chega aos três minutos e oito segundos, depois que Paul grita
Naaa na na nananaaaa nananaaaa
Hey Jude
São os simples prazeres
A língua dela desce e sobe a cada nananana, colada no lábio inferior
Envolve um picolé invisível
Quase consigo sentir
Colado no lábio inferior

20 janeiro, 2008

Ócio

Talvez eu devesse voltar a fazer alguma coisa com os meus dias além de aguardar o anoitecer intercalando refeições.
Antigamente, eu tinha um emprego, completava o orçamento com trabalhos extras, filmava, corria, nadava, estudava de noite e escrevia. Acho que em algum ponto eu tirei férias, ou me demiti, não sei ao certo... talvez houvesse uma garota, também.
Só sei que uma grande parte do propósito dos meus dias se dissolveu em expectativas.
No princípio, troquei minha cama por areia movediça, num deserto em que os sonhos me tentavam e decepcionavam, como oásis. O tempo foi passando, e os passatempos expandiram-se até não sobrar um só instante livre que pudesse dedicar a alguma atividade produtiva. Fui absorvido por livros que não eram os que eu estava escrevendo, filmes que não havia dirigido, estudos que não havia publicado, problemas que não eram os meus.
Histórias alheias acabaram ocupando o tempo ocioso que eu passei a chamar de vida.

Dois mil e oito e vinte dias

Escrevo dez páginas ao dia.
Se tivesse começado a escrever um livro no dia primeiro, já teria duzentas e teria escrito um livro.
Em uma hora de corrida moderada, completo oito quilômetros (mais que isso o joelho e o pulmão não agüentam na atual forma física cilíndrica).
Em vinte dias, já teria emagrecido quatro quilos, talvez cinco, e não teria mais um terceiro dígito na balança.
Leio vinte páginas por hora.
Com cinco horas de leitura diárias, teria lido 2.000 páginas e não teria mais uma estante ocupada com livros virgens.
De carro, são cinco horas até o Rio.
Poderia ter visitado ela 48 vezes – imaginando que tudo o que conseguiria dizer levaria somente poucos minutos.

19 janeiro, 2008

Mudo

Falei sobre silêncio e solidão ontem e, no café, quatro surdos-mudos conversavam alegremente enquanto eu lia sozinho. Só se ouvia o virar das páginas e o sorver café.
Talvez, se eu fosse totalmente surdo-mudo (e não só parcialmente, como já o sou), a complicação de tudo o mais que é corriqueiro e simples tornasse mais fáceis algumas coisas impossíveis.
Eu teria um grupo, por exemplo, e meus amigos sempre teriam que sair juntos – talvez alguma delas até aceitasse compartilhar meu silêncio e quisesse dividir essas noites que tenho livres. Ao menos minha auto-piedade teria justificativas mais plausíveis: eu teria um rótulo, uma justificativa, uma explicação, uma expiação, um alvo para minha revolta. As pessoas iam olhar para mim e entender, “coitado, é desse jeito porque não consegue falar com ninguém” – e ninguém ia ousar exigir que eu mudasse.
E o silêncio, agora insuportável, seria aceitável ante a total falta de alternativa.
Mas cada lento compasso do relógio em silêncio continua a gritar todas as notas que estão lhe faltando.

18 janeiro, 2008

Silêncio sozinho covarde

Uma mulher entra na lanchonete e percebe o único homem, sozinho numa mesa com quatro lugares, próximo ao balcão.
Ela pode sentar-se na frente dele, e ele poderia se tornar o homem da sua vida. Há também o assento oblíquo, nem diretamente ao lado nem à frente, mas próximo suficiente para dizer “Oi, sou a Cláudia, trabalho na loja da esquina... você gosta de cinema?” ou fazer uma piada sobre como o lugar estava cheio, “Ainda bem que fiz reservas com antecedência...”. Ou numa das mesas vizinhas, poderia só elogiar a gravata dele, um tom profundo e calmo como o céu no início de uma noite refrescante de verão, e ver pra onde iriam as coisas a partir daí.
Mas não. Ela senta-se em outra mesa, próxima a uma pilastra, e mastiga sua solidão vagarosamente. É uma distância segura para impedir qualquer risco de contato, mas ainda é próximo o suficiente para permitir olhares fugazes enquanto ela imagina se ele saberia beijar seus lábios inferiores como o ator da novela, se sua voz seria grave e reconfortante como a de seu avô, ou se ele seria um bom pai para seus filhos.
Na saída, pensa em perguntar se ele tem um isqueiro, mas percebe a placa com o círculo riscado, cortando o cigarro ao meio, e sai da lanchonete silenciosa e covarde.

17 janeiro, 2008

Receitas para dor alheia

Acordei com uma dor no braço diferente da costumeira.
Meu médico recomendou uma dieta rica em cálcio.
No shopping, um colchão novo prometeu serenidade em oito vezes sem juros.
Meu psicanalista me perguntou se minha mãe condenava o onanismo.
Ela diz que eu devia parar de escrever tanto até tarde.
O mecânico acha que o câmbio está custando para engrenar da primeira para a segunda e precisa de um novo alinhamento.
Meu chefe me deu o resto do dia de folga e disse pra encomendar um teclado ergonômico.
Minha avó me benzeu, puxou três rezas segurando uma colher de água e me deu pra beber instantes antes de, coincidentemente, parar a dor.

16 janeiro, 2008

Sorvendo areia

Meu camelo morreu no 44º dia em que atravessava o deserto.
As tempestades de areia moviam a paisagem a cada noite, então eu não sabia se estava perto de escapar daquele inferno árido ou se ainda estava a poucos quilômetros de onde começara minha peregrinação. Depois de oscilar o primeiro mês em círculos, percebi que havia afundado ainda mais nas entranhas secas do deserto, fugindo do meu ponto de saída e me distanciando, sem saber, da salvação.
Nenhuma miragem me distraiu para que eu pudesse me ausentar da áspera realidade. Uma miragem teria ao menos me salvado da lucidez clara e brilhante em que me afogava.
Depois que meu camelo morreu, no 44º dia, passei a arrastar sua carcaça nas costas. Ainda que me atrasasse, sentia que poderia me alimentar de sua carne – se ela ainda não tivesse apodrecido sob o sol. Ao menos ele me fazia companhia e me impedia de ter qualquer esperança de chegar a algum lugar.

15 janeiro, 2008

Alívio

Ela voltou e ele aceitou todas as desculpas. Até mesmo as que ela não deu: depois, na memória fantasiada do reencontro, ele inventou justificativas complementares irrecusáveis.
Mas a verdadeira desculpa era dele.
Mais do que casado, estava agora aliviado por não ser mais solteiro. Aliviado por não ter mais que procurar outra. Aliviado por não sofrer mais, tentado a encontrar os olhos dela nos outros rostos. Aliviado por não ter mais que falhar em simplesmente tentar. Aliviado por não ser mais errante.